Escolhi Langkawi


Atravesso os mares de Melaca para deixar a ilha de Penang.

Escolho o barco para me levar nesta viagem de quase quatro horas.
Este é o meio de transporte local. A forma ideal de contactar com diferentes etnias dos vários cantos asiáticos. Viajo em conjunto e partilho a janela para a paisagem longínqua, para lá das ondas furiosas.

Sinto os cheiros dos corpos tão únicos: uns despidos, outros completamente cobertos; uns mais escuros, outros amarelos.

Como em qualquer transporte público de longa duração, não escapamos ao filme como bónus da tarifa. Mais do que segurança ou comunidade, é indispensável um bom vídeo dobrado em chinês, com legendas em malaio e tailandês.

Converso com uma jovem muçulmana que vai visitar a tia. Explica-me que tem de estar acompanhada pelo irmão porque ainda não é casada. Somos interrompidas por gritos e disparos que nos obrigam a desviar o olhar para o ecrã. A conversa fica animada e a viagem também. A água bate fortemente contra os vidros do barco e ele balanceia como se fosse transportado pelas mãos de uma criança.

Chegamos a Langkawi.
Sei que talvez nunca nos iremos cruzar, mas foi uma conversa tão serena e sincera. Apetecia-nos continuar, concordámos. A mim inquietou-me as injustiças que ela tem vivido. Ela viajou até à Europa por uns minutos e partilhou os sonhos de ser pintora, sob o olhar atento do irmão. Ainda bem que ele não percebe inglês, ríamos. Mas acho que ele, no fundo, sentiu a irmã voar, naquele barco pesado e escuro.

Despedimo-nos como se fossemos as melhores amigas. 

Já com os pés na terra seca e clara, alugamos uma mota e um capacete. Esta novidade foi recebida sem entusiasmo. Aqui na Ásia sempre pude abrir os braços e sentir os cabelos passear com o vento, lembrando-me de uma liberdade tão natural, com sabor às gotas de sal que fogem do mar.

Será que algum dia a Hajar se sentirá livre? É muito difícil a um ocidental perceber a cultura islâmica. O sorriso tranquilo perante a minha pergunta "às vezes não te apetece fazer as tuas próprias escolhas?" arrepiou-me. Ela vive bem com isso. Ou tenta viver. Eu não. Eu não consigo entender como ainda existem estas realidades que não permitem à mulher viver a sua vida.

A minha mente começa a alimentar-se de sons. São macacos que disputam frutos secos, na berma, ignorando a nossa presença.

O contraste não podia ser maior.
Troco uma pacata cidade por um santuário de corsários e piratas.
Troco os passos lentos por uma motorizada rápida.
Troco o cheiro da arte pela brisa do mar.

Langkawi é um arquipélago com 99 ilhas que tem a Tailândia como vizinha. Começo a sentir o sol a alegrar a minha pele e a lembrar-me da tropicalidade deste local.

Desdobramos a estrada por entre florestas equatoriais, fazendas de crocodilos e templos majestosos.

Vejo águias. Muitas águias a bater as suas oponentes asas, com toda a força. Este é o retiro perfeito para os peritos destas aves. Langkawi, um nome tão poético, nasceu do cruzamento da palavra malaia águia (helang) com a palavra em sânscrito mármore (kawi).

Acompanhamos uma família local durante o almoço. Uma tenda improvisada, as mãos eram os talheres e o frango o cardápio. Os olhares indiscretos acompanhavam sorrisos descarados. Eu compreendo: a nossa especialidade não era comer usando a ponta dos dedos e não usávamos as melhores técnicas.

Seguimos viagem até Telagah Tujuh. Uma queda de água, no noroeste da ilha, que é reconhecida em inúmeras lendas sobre fadas que vinham aqui brincar e tomar banho.

Depois de passar as montanhas de calcário, descobrimos com mais um paraíso. Um verdadeiro paraíso de águas cristalinas com areia fina e branca. Os barcos coloridos espalham mais magia na praia que se completa com os coqueiros.

Encontro-me num retiro tropical.
Fico feliz por não estar sozinha nesta cidade em simbiose com a água. Sinto que há algo entre as cidades e a água muito semelhante ao amor. É uma espécie de encantamento que se amacia com os fins de tarde a ver o pôr-do-sol e os banhos demorados no mar quente e tranquilo.

Fico ainda mais feliz por ter o privilégio de escolher. Escolher Langkawi, escolher esta viagem, escolher a minha vida.

Respira-se arte nas ruas de Penang


De regresso à Malásia, sentimos vontade de receber a tão aclamada ilha de Penang.
Mas se acham que fomos impulsionados pela praia, enganem-se.
Aqui contemplamos, com todos os sentidos, a arte e a cultura.

Prendo o mapa na ponta dos meus dedos e vou seguindo as suas rotas. Descubro cada estrada, cada recanto. O roteiro leva-me a explorar as obras de arte personificadas, nos becos  mais emblemáticos da histórica cidade.

Caminho pelas ruas estreitas e vou me encontrando com as pinturas de parede criativas, as construções históricas e os murais divertidos. São criados por Ernest Zacharevic, um artista que tem dado cor e vida às ruas de George Town. O jovem lituano, que começou com alongados pedidos de autorização, viu o seu projeto “Mirrors George Town” ganhar asas e voar pela cidade.

Foi suscitando cada vez mais interesse, ganhou popularidade e atualmente Zacharevic cria a pedido dos moradores que oferecem os seus muros como tela. Este tornou-se um verdadeiro espetáculo de boas-vindas na cidade.

A peculiaridade do artista está em aliar a pintura a objetos reais, para causar um leve efeito de tridimensionalidade. Parece que têm vida. E têm. As obras retratam acontecimentos reais da vida das pessoas da capital de Penang. São duas crianças a andar de bicicleta, é um homem velho, um coração partido.

Impressiono-me com desenhos extraordinariamente bem executadas, focados no pormenor, na cor, na vida. Se entretanto nascer ali uma árvore também ela fará parte do mural artístico. É ecológico, é criativo, é inspirador.

E o mais extraordinário é que esta fantástica forma de arte está disponível a todos, aberta a diferentes olhares e não se restringe a um público perito em arte ou expert em cultura.

Como é bom descobrir a arte na rua.
Como é bom não ter um bilhete caríssimo na mão a lembrar-me o preço daquele momento. Como é bom poder tocar cada obra e não ser interrompida por um segurança que me vigia a cada minuto.
Como é bom não ter um guia a explicar-me cada pormenor, sem me deixar pensar.
Como é bom ter o meu tempo para observar, sentir, rir, encantar-me.

Estas são já atrações turísticas que proporcionou a George Town ser  considerada, pela UNESCO, Património da Humanidade.

Para além da cultura ancorada na rua, Penang é rica também festivais religiosos, espetáculos, exposições e leituras feitas por artistas e escritores locais e internacionais.

Nesta pequena ilha encontramos malaios, chineses e indianos. Rastilhos da história já que esta foi, por muito tempo, o principal ponto de conexão entre o ocidente e o oriente.

Há realmente uma grande mescla de culturas e religiões, no meio de uma cidade histórica.
Mas é uma diversidade cultural pacífica. Caminhamos por entre igrejas e templos. Católicos, hinduístas, budistas e muçulmanos. Lado a lado, na Rua da Harmonia. Celebram religiões diferentes, convivem com preces distintas e vendem comidas únicas, da sua terra natal.

Todas estas culturas se convergem criando pratos bastante diversificados. E é neste ponto que a gastronomia de Penang se destaca, como a capital gastronómica da Malásia.

Os candeeiros acendem. É noite. Sigo o brilho da luz e o caminho intui-se até aos famosos hamburguers cor-de-rosa.

Aqui deliciei-me com a combinação de arte, gastronomia, arquitetura e mistura cultural.
A cada parede fui-me apaixonando mais e mais pela cidade.
Ao descobrir cada mural sentia-me uma criança em busca do tesouro desconhecido. E que boa sensação é esta.

Ping Pong Show em Bangkok


Nesta cidade que respira alegria, ao virar de cada esquina encontro mais um senhor agradecido por vender um sumo de fruta ou uma mulher satisfeita por ensinar uma nova palavra. Sempre seguido de um Wai. Um gesto que graciosamente usam para cumprimentar ou agradecer. Juntam as palmas das mãos na altura do peito e as pontas dos dedos quase tocam no queixo. Inclinam levemente a cabeça e os joelhos, fecham os olhos e tracejam um sorriso discreto.

Mas quando o sol se põe, Bangkok transforma-se. Aqui a noite é quem mais ordena.
A cidade não dorme. E os vendedores de rua também não. Ainda há maiores comércios abertos e melhores negócios a explorar.

Taxistas, que se recusam a usar taxímetro, dobram os preços.
O trânsito fica mais caótico.
Acompanham-se os jantares demorados com conversas profundas, pratos pequenos e bebidas mergulhadas em gelo.
As lâmpadas coloridas iluminam as ruas e as luzes fluorescentes tornam os produtos mais brilhantes.
Vêem-se bandeirinhas vermelhas penduradas que embelezam a cidade.
Os templos ficam dourados.

Uns senhores tailandeses esgotam todo o seu vocabulário inglês para convencer os turistas a não perder um show de ping pong. Insistentemente apontavam para um panfleto, enumerando o tipo de truque que tinha à disposição.

Pode ter palco, mas não são espetáculos. São locais onde as mulheres se despem, dançam e apresentam um show.

Há quem os considere um circo erótico repugnante.
Há quem venha propositadamente a Bangkok para assistir a estes shows.
Há quem seja levado pela espontaneidade do momento.

Tornaram-se um marco da cidade. Deixaram de ser tabu, são exibidos nos filmes e documentários e despertam a curiosidade dos turistas. Todos. Casais, solteiros, amigos ou desconhecidos, novos e velhos, ricos e pobres.

A reação das pessoas é distinta. Algumas pessoas riem, outras ficam abismadas ou até agoniadas.

Penso na dignidade. Será que essas mulheres estão a ser exploradas? Será que precisam ou assumem o controlo para ganhar mais dinheiro? Não sei a resposta, talvez pernaça algures no meio de ambas. Provavelmente nem elas sabem. 

Troco olhares com casais que passeiam, de mãos dadas. Carregadas de sacos de compras.
Homens com cabelo grisalho e rugas disfarçadas e mulheres com saltos altos e saias curtas.

Outros apenas observam, com olhares entusiasmados, as portas que se abrem para corpos despidos que dançam. Sem vontade. Ao mesmo tempo, as dançarinas vão conversando, vão petiscando, vão se  distraindo com o telemóvel. Sem nunca parar de mexer o corpo.

Sei que pode parecer assustador para uns. Ou até divertido para outros.

Mas vale a pena experienciar cada momento em Bangkok porque é uma mistura de tudo, uma loucura que enfeitiça.


O mercado flutuante de Bangkok


O dia começou bem cedo e a boa disposição juntou-se a nós, juntamente com o meu origami amarelo.

Trocamos um punhado de baht por uma viagem que supostamente nos levava para o mercado flutuante, de Bangkok. Quase duas horas depois, o pequeno autocarro deixou-nos e, antes de podermos perguntar onde começava o mercado, abandonou o local. Deixou uma poeira no ar e uma dúvida instalada.

Minutos depois, uma jovem menina explicou-nos que estávamos a uns belos metros de distância. Teríamos de usar um barco para entrar no mercado flutuante.

Bastaram uns segundos para perceber que se tratava de mais esquema. Fechei os olhos, inspirei todo o ar que consegui até sentir os pulmões cheios e depois expirei rapidamente. Tentei explicar, com a maior calma que consegui, que já tínhamos pago o bilhete diretamente para o mercado. Perante a minha angústia, ela encolheu os ombros e rematou que não havia outra solução.

Metemos, então, os pés nas tábuas de madeira que ressaltaram o nosso peso. Ouvimos um rangido, ao de leve. O barco balançou e a água tremeu. Mas o marinheiro era experiente. Ligou o motor. Deixando umas ondas se esvaírem nas margens do rio.

A bandeira da Tailândia espetada na proa indicava qual o caminho. E que caminho. Um labirinto de canais cercado por postes de eletricidade que saiam do rio e palafitas residenciais. São casas de madeira construídas em cima da água. Estavam desgastadas do sol, com uma cor desvanecida. As varandas são substituídas por estrados de madeira molhados. Aqui colocam-se os pequenos templos cobertos de flores e com cheiro a fé. As plantas vão crescendo por entre os troncos de madeira que sustentam as casas. O bambu ajuda a suportar o peso.

Viam-se barcos estacionados na garagem improvisada.
Outros passavam por nós, conduzidos por mulheres de sorriso fácil e chapéus de palha finamente traçada. O barco é o seu sustento. Remam com leveza e graça e cobrem a pele com roupas largas. Por entre panelas e colheres de pau, balanças e especiarias frescas lá encontramos frutas e comidas tailandesas. O carvão dourava as espetadas de lulas brancas como a cal.

As cores ressaltavam-nos à vista, o sol aquecia a pele e umas bananas aguentaram-nos por esta viagem.

Por momentos fez-me lembrar Veneza.
Os mais velhos balanceavam-se nas cadeiras de pano, os mais novos banhavam-se na água fresca e as mulheres lavavam a loiça no rio.

Nas margens dos canais, plataformas de cimento suportavam artigos de decoração, malas, especiarias secas, instrumentos musicais e quadros cuidadosamente esculpidos.
Havia também lojas flutuantes, em pequenas jangadas.
E o nosso marinheiro ia encostando ou abrandando.  
Muitas negociações e poucas compras. Os preços são exagerados. Mas o esforço por mais uma venda é proporcional à simpatia.

Uma experiência diferente, molhada num cenário que se movimenta sem pressa. Fica na memória as águas calmas, o caos dos vendedores e as cores das frutas tropicais que conferem uma mistura de aromas deliciosa.

O meu Origami amarelo


Sabem aquele amuleto da sorte que levam para todo o lado? Aquele talismã que não dispensam para atrair energia positiva?

Falei já com várias pessoas, durante a viagem, que trazem imensos objetos que não despendem. Desde pendentes, relíquias religiosas, medalhas ou até chaveiros. Cada um deles com significados distintos: preservar a sua saúde, garantir mais dinheiro ou mesmo atrair um novo amor.

Dizem-me, ainda, que o símbolo deve ser usado junto ao corpo, como proteção e atrativo de sorte.

Muitas vezes pensei que era uma superstição, uma crença que ajuda a viver o dia com uma segurança reforçada.
Outras histórias comprovaram a veradicidade daquele símbolo mágico. Confesso que gosto de me deixar encantar com o misticismo envolvido, sem procurar uma justificação válida ou cientificamente comprovada. Como uma criança a assistir a um espetáculo de magia.

Eu não uso nenhum amuleto, mas tenho o meu origami amarelo. É verdade, é um simples origami feito de papel já com a cor gasta e as formas a arredondar-se com o passar dos dias. Mas para mim tem um significado muito especial.

Foi-me oferecido no dia em que embarquei por duas pessoas que amo muito. Recebi-o com tamanha alegria, junto com umas lágrimas e o coração a palpitar.

Desde esse dia, anda comigo para todo o lado. Às vezes até me esqueço dos óculos ou do telemóvel, mas o origami nunca. Está sempre aqui. Está sempre comigo.

Os esquemas de Bangkok


Na cidade mais povoada da Tailândia e mais visitada do mundo em 2013, encontrei os melhores esquemas para enganar os viajantes.

Bangkok tem o ambiente propício: caos instalado, trânsito efervescente, comércio local e informal, luzes e barulho a toda a hora.

A cidade não pára e os taxistas também não.

A principal dificuldade é mesmo arranjar transporte para nos deslocarmos pela cidade.

Ou porque os taxistas não param perante o nosso braço firmemente esticado.
Ou porque, quando param, não lhes agrada o local por nós escolhido. Então franzem as sobrancelhas, abanam a cabeça e seguem o seu caminho solitário.
Ou porque, quando nos aceitam como clientes, cobrem um valor absurdamente alto. Negociamos meia dúzia de preços. Pedimos para usar taxímetro. A maioria das vezes em vão.
Ou porque, quando usam taxímetro, levam-nos a dar uma grande volta pela cidade.

Podemos tentar o tuk tuk, pensamos. É o transporte mais popular da capital tailandesa.  Colorido, divertido e arejado. É uma espécie de mota com duas rodas atrás. Tem um teto para proteger do sol e umas barras de pouca proteção, um piloto acelarado na frente e os turistas assustados atrás. 

Mas aí a situação complica. Estes motoristas gostam de oferecer viagens baratas ou mesmo desviar a sua rota para nos mostrar umas quantas lojas de pedras preciosas por preços convidativos, dizem os entendidos. Falsas, ficamos a saber mais tarde.

É comum pedir, também, para abastecer o veículo ou contribuir para o combustível.

Ainda assim, o mais engraçado foi mesmo a paragem repentina numa alfaiataria. Seis vendedores apareceram junto ao tuk tuk, abriram-nos as portas de vidro e encaminharam-nos a um provador de fatos, camisas e gravatas. Pegaram nas fitas métricas, nos catálogos e nos tecidos. Não conseguia parar de rir, mas eles estavam decididos. Tentamos explicar que não precisávamos de fatos. Tarefa nada fácil.

Cá fora estava o nosso motorista a lanchar com o gerente da loja de moda.

Mas nem só de rotas traçadas pelos taxistas vivem os esquemas, também o comércio impera nesta árdua tarefa de fraudar o turista.
E aqui os mercados são campeões. Vendedores esforçados por vender e turistas desejosos por comprar.

Lança-se um preço inicial exorbitante e arregala-se os olhos por uma nova quantia. Tenta-se chegar a um acordo. Ouve-se uns gritos, umas gargalhas e uns obrigados. Negócio fechado.

Um suposto chef de cozinha prepara uma iguaria tailandesa. Dezenas de pessoas se juntam a avistar tamanho profissionalismo. Pelo baú de notas, a venda corre bem apesar do preço exagerado.

Mais à frente umas quantas senhoras confeccionam a mesmo prato, por uma quantia mais convidativa. Mas pessoas não param.

Afinal o segredo é o uniforme a primor.

Apresar de todas estes truques, Bangkok é surpreendentemente segura. Não há crimes violentos nem roubos, pelo menos à descarada.

É das cidades asiáticas mais receptivas a turistas e repleta de jóias verdadeiras à espera de serem descobertas. Monges em robes, letreiros luminosos, graciosa arquitetura, frutas frescas, mercados coloridos e um clima tropical andam juntos numa feliz coincidência.


O comboio eterno para Bangkok


Entro num comboio apinhado. É o número nove, ouço lá ao fundo. Não há placards a indicar o percurso, muito menos horários estipulados em tabelas.

Subo umas estreitas escadas que me levam para a terceira classe. Bancos velhos sustentam pessoas de semblante carregado. São permitidos bebés ao colo e animais a bordo. Ouço uma galinha, cheiro um cão e sinto mais um mosquito picar-me na perna.

Vou caminhando pelo corredor a entro no restaurante. Ou melhor no bar. Não se vende comida, só cerveja. A música convida a um pezinho de dança e as luzes amenizam o ambiente.
Conversamos com um animado casal australiano que também se dirigia para Bangkok porque a noite é de arromba, explicavam, por entre um e outro gole de Cheers.

A próxima carruagem estava distanciada mais de um metro.
Enquanto atravessávamos, por dois estrados de metal cruzados, conseguíamos espreitar o mundo lá fora. São casas feitas em pau e chapa. São sofás virados para a linha de comboio. São mais galinhas, presas numa rede de plástico.

Chegamos, estamos na classe número dois.
Assentos almofadados, turistas e ventoinhas. Menos divertido do que na terceira classe, mas mais barulho: diferentes músicas se misturavam com diferentes línguas.

No fundo lá estava a primeira classe. Tinha pequenos quartos e mini casas de banho. As pessoas ali estavam protegidas com dois seguranças que impediam a passagem dos mais curiosos.

Enquanto parávamos para recolher mais passageiros, várias pessoas entravam no comboio, ainda em andamento, com cestos na mão. Usavam aqueles minutos para vender bebidas frescas e comidas com cheiro a picante. Os trocos eram recebidos rapidamente e os vendedores saíam antes do comboio ganhar velocidade.

Como por magia, um senhor juntou dois lugares num só. Em cima, abriu uma espécie de gaveta que se transformou numa cama.

Já quase toda a gente correu as cortinas azuis e ouvia-se algures um ressonar intenso.
O corredor começa a esvaziar-se.

Antes de dormir fui à casa de banho. Passo pelo senhor que amavelmente nos fez as camas. Estava a dormir por entre um monte de lençóis. Reconheci-o pelo chapéu.

Abro a parto e eis a minha surpresa: não há sanitas nem papel higiénico. Mas é arejada, o chão tem um buraco bem redondo que nos permite ver as estradas lamacentas por onde passamos.

Fiquei com a cama de baixo, uma almofada alta e um cobertor quentinho. Avista-se uma boa noite de sono, pensei. Sem distrações. Aqui não há televisão, tomadas para o computador nem internet.

À noite o sono era interrompido pelos solavancos do comboio, que me fazem arrepiar de medo.
Tentei ler para me distrair. Mas comboio despertava o vento. E este despertava-me a mim.
Tentei ouvir música. Mas parecia que estava numa montanha russa, sem cinto.

Quando o maquinista começou a abrandar o ritmo, finalmente adormeci. Pouco tempo depois fui acordada com uma palmadinha no rabo. Por quem? Pelo mesmo senhor mágico que dormiu de chapéu. Pelos vistos, era assim que ele acordava as meninas.

E, onze horas depois, finalmente chegamos.

Neste comboio eterno vivi uma das mais assustadores e ao mesmo tempo surpreendentes experiências da minha vida.

Maravilhosas ilhas da Tailândia... Até já!


Há muitas coisas que não estou habituada.

Encantar-me com os bichos.
As borboletas que se envolvem sem medo sobre as minhas pernas, as lagartixas de meio palmo que circulam com medo pelas paredes.
Adormecer em jardins suspensos de palmeiras a silenciar a noite.
Acordar com uma brisa quente da manhã a dizer-me bom dia.

E foi bem cedo que despertou a nossa vontade de ver o que nos esperava do outro lado da janela.
Mochilas às costas, câmaras na mão e mota atestada. Prontos para desbravar umas quantas novas terras, como em tempos se fazia. Rotas não planeadas, guias esquecidos ainda tornam esta rota mais apetecível.
Cada local atravessado tornava-se numa nova memória guardada num local muito especial. O fumo que saía das fogueiras e deixava o ar um pouco mais triste, as motorizadas que carregam colchões de casal, os cabos de eletricidade que se juntavam às dezenas emitindo um som levemente ruidoso, as lojas que expunham roupas tão coloridos que nos desviavam o olhar.

Nestas barraquinhas de rua os topes de decote largo e os calções de corte reduzido publicitavam as festas que se aproximavam. Sim, aqui é também um local de festas. A aclamada Full Moon Party (Festa da Lua Cheia) estava em todos os cartazes a prometer parar Tailândia. E os turistas preparavam-se com barris de cerveja e tatuagens frescas de luas cheias.

Seguimos para uma nova praia que conquistou todos os nossos sentidos. O mar entrava pela areia com um cheiro de pescados frescos pela força dos pescadores e das pescadoras que ali habitavam. Admiramos o esforço e a dedicação que sustentam a família com a sua bravura. São verdadeiros guerreiros que aliam a coragem à luta e ao sacrifício diário pelo alimento.

Não resistimos a almoçar ali. No meio de uma gargalhada mais efusiva, um copo com o batido de morango caiu ao chão. Estava preocupada com o sumo e a senhora do restaurante com o copo. É verdade, outra particularidade da cultura daqui é que temos de pagar tudo o que estragamos. E isso aconteceu-nos duas vezes. Acho que foi o medo de não partir. Apesar de tentarmos explicar que foi sem querer, tivemos sempre que pagar.

Entre uma e outra paragem, contávamos já com meia dúzia de intervalos de banhos num mar incrivelmente limpo que espelhava o céu tão perto, que parecia que lhe podíamos tocar...

Outros bichos, desta vez, maiores, fizeram-nos abrandar. Um cavalo bem torneado, dois elefantes que carregavam pessoas, uns quantos macacos presos com uma trela e ainda dezenas de turistas a tirar fotografias.

Tentei perceber porque estavam aqueles homens e mulheres a tirar fotografias a animais com os olhos tão tristes, tão tristes... E, até, pagavam.

Mais à frente elefantes novos, ainda com marfim, brincavam.  

A surpresa chegou ao fim da tarde quando encontramos uma ilha distante, onde os dois mares se juntavam num comprido e estreito trilho na areia. Atravessamos com facilidade este caminho  que unia as ilhas, quando a maré ainda estava baixa. E perdemo-nos neste pequeno pedaço de terra. Entre balouços feitos de cordas e troncos, caminhos construídos com pedras e pegadas de misteriosos animais. Umas horas depois foi mais difícil para voltar. As ondas tinham crescido e o tal elevado na areia afastava-se dos nossos pés.

Despedimo-nos das ilhas deste maravilhoso país num barco. Do  lado de fora, duas mulheres esticavam um cesto para dentro do barco, com a ajuda de um pau de madeira. Recolhiam dinheiro em troca de gelados. Uma técnica artesanal que vendeu todo o stock das comerciantes, em menos de quinze minutos.

Já embalada no sono, fui interrompida por um segurança que me pedia uns baths. Mostrei-lhe o bilhete. Mas o senhor explicou-me que estava numa zona VIP. Pois é, desviei-me uns metros e agora sim, encontrava-me junto do povo e poderia dormir descansada.

Diz o velho ditado " Nunca Voltes a um Lugar Onde Foste Feliz " mas eu acredito que voltarei. Acho que vou contrariar a sabedoria popular e ouvir o meu coração...

Um pequeno paraíso apelidado de Koh Phangan


Depois de um dia intenso, ofereci a mim mesma um fim de tarde numa praia calma.

Ajeitei a areia de modo a formar o molde perfeito para o meu corpo.
E entrei profundamente na história do meu livro que me levava para um tempo de reis e rainhas, príncipes e princesas.

De repente sinto uma mão firme tocar no meu pé. Estremeci com o susto.

Era uma simpática tailandesa que se oferecia para me massajar. Agradeci-lhe e tentei explicar que apenas queria ler. Mas não a convenci.

"Um minuto grátis" repetia enquanto fazia a massagem de uma forma tão precisa como se fizesse aquilo durante toda a sua vida. E assim continuou durante quase meia hora.

Percebi que não valia a pena continuar a dizer que não queria. Ela já não me largava mais os pés!

Então decidi desfrutar da relaxante massagem enquanto observava as bandeiras velhas que esvoaçavam no céu. Estavam espetadas na proa de um barco ainda mais velho que dançava ao sabor das ondas.

Fechei os olhos para poder guardar este momento de paz para sempre no meu coração.
Como é bom estar rodeada de ilhas sem nome, em terras que se sustentam em tapetes mágicos de coral.

Também eu agora me sinto uma princesa.

Os (des)encantos da Tailândia


Os encantos de Tailândia? São muitos...

São barcos embalados no mar e desgastados do sal.
É fechar os olhos e sentir o calor respirar.
Pessoas com os pés descalços e o sorriso fácil.
É acordar com o sol a aquecer-me os ombros
Desdobrar cada ilha no balanço de numa mota.
É recarregar a gasolina com garrafas de litro.
O orgulho pelo boxe tailandês.
Pescar até acabar o isco.
Retirar um coco maduro de uma palmeira.
Refrescar o corpo com sumos de fruta fresca e bem espremida.
Ver bacalhaus a secar nas janelas.
Saborear peixe grelhado com uma frescura intensa.
Crianças prontas a acenar para a câmara.
Cascatas rápidas.
Pôr-do-sol lento.
É escrever com os dedos molhados...

Tenho recebido profundas opiniões sobre a Tailândia. Isso deixa-me muito feliz.
Por vezes, dizem-me que escrevo muito sobre o que é importante mudar aqui. E tenho me esquecido de referir os encantos deste lindo país.

Mas, para mim, é difícil estar na praia a apanhar banhos de sol e ver crianças a vender-me papagaios de papel.
Não consigo ficar satisfeita com isso, tirar uma fotografia com ela, comprar-lhe um brinquedo e voltar aos banhos de sol.

Preciso de perceber por que razão ela está ali. Preciso de respostas. Preciso de mudanças. Quero que esses meninos e essas meninas parem de vender brinquedos e brinquem. Que parem de arrastar as pernas cansadas pela areia e vão a correr para a escola.

Aqui a vida é vista assim, é vista com calma e liberdade. Sem grandes preocupações.
É andar de mota sem capacete; é ter massagens, roupas e tatuagens na mesma loja. E, mesmo assim, ter tempo para dormir uma sesta entre uma e outra venda.

E, apesar da urgência das mudanças que me consome, esta felicidade simples encanta-me...

A menina tailandesa com voz meiga



Sim, são bananas fritas.
Sim, é uma menina, a olhar para elas.
Não, não as vai comer, está a vendê-las.

Nos dois segundos em que este pensamento me invadiu, senti o meu coração a palpitar a relembrar-me da injustiça que estava a presenciar.

Num primeiro instante pensei que a menina poderia ter fome. Comprei-lhe uma mão-cheia de bananas embrulhadas em folha e estendi a mão. Come-as tu querida, disse com a voz a tremer. Ela não as comeu, juntou-as às restantes. Talvez não tenha percebido. Talvez não pudesse fazê-lo.

Mas enquanto vi a menina e preparar a famosa iguaria percebi que afinal o que ela sentia não era fome, era sono... E não era para menos, o dia já tinha contado mais de 22 horas.

Por que razão esta menina está a vender bananas? Esteve a fazê-lo todo o dia? Porque não está já em casa, a dormir? A escola não começa cedo, amanhã?

Numa tentativa de responder a estas questões, vi-lhe um sorriso. Com uma voz meiga respondeu que não sabia falar inglês.

Aqui na Tailândia as crianças estão, muitas vezes, do outro lado. Do lado do vendedor, do lado do adulto.

É muito difícil presenciar estes momentos quase todos os dias.

Às vezes tento falar com as crianças, outras com os pais, ou até com a polícia e o governo.
Eles não me ouvem. Ou não querem ouvir.

Admito que isto já esteja implementado aqui há muitos anos, é cultural. Que o direito à escola é esquecido e o dever de brincar é abandonado.

Mas acredito que devemos (pelo menos tentar) fazer alguma coisa. E, de uma forma mais ou menos resultante, faço-o todos os dias.
Uma conversa com um autoridade da vila, uma brincadeira com um menino gracioso, uma carta endereçada a um presidente, uma festinha numa testa quente, em e-mail mais avivado...

E não vou desistir!


Viva o rei da Tailândia!


Onde quer que vá, vejo uma nova adoração ao rei: os seus quadros que adornam muitas casas; pequenos altares em lojas e restaurantes e o seu aniversário comemorado como um feriado nacional e o dia do país.

Por momentos recupero outras imagens do meu país: quando se idolatrava um chefe de estado e se vivia reprimido, preso e sem ideias.

Aqui na Tailândia, também o patriotismo é vivido intensamente. Quando a tarde já vai avançada ouço uma canção nos holofotes. Percebo depois que é o hino nacional. Todas as pessoas pararam, tal como estátuas, a ouvir. Encerrada a canção, tudo volta ao normal.

O motivo de tanto respeito? O hino foi composto pelo prezado monarca. Mas reparem, para além de músico e compositor, é velejador de competição e concebe os seus barcos, saxofonista, pintor com obra exposta, inventor com patentes registadas e radioamador.

Este senhor, com os seus respeitados 86 anos, é o homem dos sete ofícios. Mas o seu maior património são os 30 bilhões de dólares que guarda em seu cuidado. Mais do que suficiente para ajudar esta população que bem precisa, pensei.

Por outro lado, a pobreza extrema entra na minha vista todos os dias e a toda a hora. As crianças cheias de mazelas, ranho e fome por matar.

Pergunto, então, às pessoas se gostam do seu rei. Se Bhumibol Adulyadej se preocupa com elas. Apesar da simpatia que transparecesse nos tailandeses e tailandesas, da maioria não obtenho uma resposta profunda e sincera. Sai apenas um "o rei é bom", em coro.

Destaco, entre eles, um taxista que me olhou pelo retrovisor perante as minhas perguntas indigentes. Teceu uma cara séria, franziu os olhos e retorquiu "ajuda quatro pessoas". Será que ele não percebeu as minhas perguntas? Será que não fala inglês? Ou será que entendeu perfeitamente e me respondeu com a maior sinceridade do mundo, num pequeno grito de revolta? E aquelas quatro pessoas, são o núcleo da famílias do rei mais rico do mundo?

O rei da Tailândia é intitulado Chefe de Estado, Chefe das Forças Armadas, Defensor da religião budista e o defensor de todas as religiões. Ao mesmo tempo é o rei doente, como é apelidado em alguns jornais. Apesar de estar numa cadeira de rodas e internado quatro anos num hospital, não deixa de exercer a mais longa monarca reinante na história do país. Longa e com uma influência exacerbada.

Neste contexto de protestos em prol da derrubada do governo, o rei dispensou de cinco minutos para pedir aos seus cidadãos politicamente divididos para permanecer unidos para a estabilidade e segurança do país.

E enquanto os cidadãos vestidos de amarelo (a cor da monarquia) aplaudiam o rei envolvido no seu habitual traje de ouro, os manifestantes de camisas vermelhas lutam pelo fim da corrupção.

Embora não tenha poderes legais oficiais, Bhumibol é visto como a força unificadora único neste país de 67 milhões de pessoas que vêm o seu rosto exposto em grandiosos placards.

Mas aquilo que mais me surpreendeu, por incrível que pareça, aconteceu numa ida ao cinema. Após os habituais trailers, a tela fica totalmente escura, todas as pessoas se colocaram de pé e começamos a ouvir uma música tailandesa. Diferente do hino nacional. Esta chama-se antena real. E, claro, o pano de fundo era o rei. Uma sucessão de imagens do rei com crianças, com velhinhos. Enfim, uma publicidade gratuita, uma veneração cega ou um culto da pátria?

Um dia mágico em Koh Samui


Como se de um orgulho nativo se tratasse, a Tailândia esforça-se por manter o seu dialeto. Poucas pessoas falam inglês. E, quando falam, nunca deixam de misturar umas palavras em tailandês.

Sigo com os olhos aqueles carateres estranhos. Não sei o que significam mas a sua perfeição e o cuidado com que as pessoas os desenham transparecem o caráter dos tailandeses. Preocupados, dedicados e atenciosos.

Sempre prontos a explicar um novo hábito, uma nova palavra, um novo comprimento.

No inicio estranhei. Confesso que cheguei a pensar no motivo de estarem tão reticentes a outras culturas.
Mas a verdade é que usam uma forma muito bonita de partilhar os seus costumes e é assim que tenho aprendido sobre a cultura deste país maravilhoso. 

Trocamos alguns ringgits malaio por um punhado de bahts tailandeses e contratamos uma viagem num autocarro com cortinados arrosados e naperons de lã. Pelo caminho fomos nos aproximando do mar, fazendo esquecer o frio que se fazia sentir dentro do arrojado autocarro.

Uma hora de depois senti-me novamente no calor abrasador. Não por muito tempo. Tínhamos, agora, um ferry à nossa espera. Desta vez a frescura não era de um ar condicionado e forçado. Era uma frescura do oceano que me perfumava o cabelo com gotas de água salgada.

De quando em vez encontrávamos uma nova praia deserta. Pelo caminho, pequenos aviões estacionavam naquelas ilhas paradisíacas e grandes barcos transportavam pessoas com roupas de praia e desejo de mar.

Foi quase um par de horas de horas embalados pelo oceano.
Enquanto uns dormiam, outros tentavam parar a turbulência com os braços. Em vão.
Nós sentimos um vazio no estômago que quase se preencheu com um cachorro quente. Não tinha pão, só a salsicha espetada num palito.

E finalmente chegamos à ilha que orgulhosamente apelidam de Samui. Conhecida como a  pérola do Mar da China por ter sido povoada apenas por pescadores de origem chinesa até à década de oitenta.

O nosso hotel ficava afastado do porto, por isso procuramos um transporte. Autocarro, não há. Só táxi. A alegria voltou quando percebi que o táxi era uma mota. Sim, agarrei-me à barriga de um moto-taxista com rugas nas mãos e um cheirinho a peixe na camisola gasta do sol. Desconfio que também era pescador. Ainda lhe perguntei mas o sorridente senhor não falava inglês.

Antes de desfazer as mochilas, não resistimos a dar um mergulho naquela água sem ondas e tão transparente. A saudade do mar falou mais alto, semelhante àquele de quando descobrimos um novo brinquedo em crianças. Por ali ficamos até o por de sol nos mandar embora.

Passeamos pela vila de Koh Samui entre lojas locais, barzinhos de praia e vendedores de rua. 
Até que encontramos um mercado de comida tailandesa. Ficamos fascinados o cheiro a marisco fresco, como já não sentíamos há muito tempo.
Devoramos umas gambas saborosas envolvidas num ambiente quente cheio de luz e cor.

O dia terminou com um passeio pela praia. A noite encheu-se de luz com um espetáculo pirotécnico que animava os mais distraídos. O fogo iluminava o céu e terminava no mar.

Com os pés mergulhados na areia deliciamo-nos com uma banana split, um sumo espremido de um maracujá maduro e um abraço demorado.

A melhor forma de terminar um dia mágico, numa ilha ainda mais mágica.



Um Natal bem quentinho, na Tailândia


Este Natal já não tive o quentinho da lareira, a chuva a molhar as janelas numa casa cheia, com as luzes na árvore de natal acompanhadas de bolas coloridas e fitas felpudas.

Usufruí do quentinho de uma fogueira, a água do mar a molhar-me os pés descalços numa
praia deserta, com a lua desenvergonhadamente cheia acompanhada de centenas de estrelas brilhantes.

A aventura começou pela manhã quando montamos as motas à procura de canas, anzóis, chumbos, carreto e isco. O vendedor hesitou em emprestar ou alugar a sua relíquia que caçava peixe graúdo, como orgulhosamente expunha nas  fotografias na parede. Percebemos que o pescador experiente duvidava da nossa capacidade para a pesca.

Mas não desistimos. É certo que as canas não eram as mais fortes do mundo mas enchemo-nos de atitude e fomos à descoberta de diferentes portos de pesca. Trocamos algumas técnicas com pescadores locais e observamos a sua perícia.

A verdade é que, por muita energia que atestássemos a lançar as canas e por muita paciência que mantivéssemos a aguardar que algum peixe se dignassem a comer o nosso isco, o desfecho foi caricato. Sem anzóis, sem isco e, pior, sem peixes!

Mas continuamos com a vontade de fazer deste um natal diferente, queríamos grelhar o peixe na praia. Acabou por não ser pescado, mas foi do mercado. E ainda acrescentamos três tiras de costela, pão quente e frutas frescas.
O pequeno cesto de metal que usamos para fazer as compras é perfeito para o nosso grelhador.

Estava tudo a postos. Formamos um largo buraco na areia e procuramos por folhas secas e paus mais finos para atear o fogo. Rapidamente vimos um clarão de luz a aquecer o ambiente e a iluminar a noite. Os troncos maiores ajudaram a tornar a fogueira mais branda.

Temperávamos o peixe com bastante limão e umas pedras de sal, e temperávamos a nossa conversa com bastantes gargalhas e umas pitada de nostalgia quando recordamos os natais em família.

Apercebemo-nos de que as brasas estavam no ponto. Entretanto o peixe perdia tamanho, suava para as brasas de carvão e ganhava uma cor dourada.

Saboreamos a frescura do peixe com calma, apuramos os sabores dos legumes frescos
e testamos diferentes paladares das frutas que refrescaram o serão.

Já perto das doze badaladas trocamos os presentes com os amigos secretos, resultando surpresas muito engraçadas. Ora aparelhos eletrónicos, ora presentes em cadeia, ora jogos locais.

No final da noite senti os meus pés se esfriarem na água, enquanto ouvia Pink Floyd.

Cada um mostrou as suas habilidades para a dança espalhando a areia branca pelo ar, como pós de magia, tornando esta noite ainda mais especial.

Mergulhar na melhor vista de Singapura



Em Singapura respira-se segurança e tudo está devidamente organizado.

Por esse motivo, era impossível entrar de penetra naquele hotel gigante que fica na mira de qualquer ponto da cidade. Estou a falar-vos do Marina Bay Sands

Tudo ali é superlativo. São três torres conectadas no cimo por um pátio, em forma de barco, cujo comprimento é superior ao tamanho da Torre Eiffel deitada. Este hotel associa-se a números extraordinários, desde o valor da construção (R$12 bilhões) até ao tamanho da piscina (150 metros).

O desafio que me propuseram foi conseguir infiltrar-me neste grandioso empreendimento para podermos mergulhar na melhor vista da cidade. 

Sabia que não era fácil por isso pensei num plano. Fui equipada para o ginásio e entrei no hotel mais caro do mundo com a maior confiança do mundo. 

Consegui disfarçar a entrada num elevador da 2ª torre incluindo-me num grupo de amigas divertidas com telemóveis nas mãos. Como não tinha o cartão necessário para escolher um andar, saí do elevador com um agradável casal holandês que usufruíam de duas semanas de férias no hotel.  Estávamos no 15º andar. 

Enquanto caminhava por entre o corredor que conduzia aos quartos, vi uma porta aberta. Abrandei e um funcionário do hotel, que procedia à limpeza, imediatamente veio ter comigo. Expliquei-lhe que pretendia ir ao ginásio mas esqueci-me do cartão dentro do meu quarto. O Mr. Wang não sabia falar inglês. Tentei uns movimentos universais de exercício físico e ele esboçou uma enorme gargalhada. Acho que o meu esforço o convenceu e deu-me o seu cartão. Por momentos pensei que o simpático senhor me tinha emprestado o dito bilhete-de-visita mas fez questão de dizer, por entre gestos, que ficava para mim. Poderia me esquecer novamente e assim ficava com dois, elucidou-me. 

Entrei no elevador, introduzi o cartão dourado na ranhura e senti o meu dedo encontrar-se com o número 57, o andar superior. A porta abriu-se para uma verdadeira pintura a óleo da cidade de Singapura. Foi então que percebi o motivo deste hotel ser considerado uma das obras mais vertiginosas de sempre

Comecei a nadar em direcção ao infinito e quando a plataforma de mármore me parou, os meus olhos rodaram em todos sentidos. Vi os arranha-céus a tocarem as nuvens, as copas das árvores a embelezar o cenário e os carros que se assemelhavam a minúsculas formigas trabalhadoras. 

A piscina tem uma distância de 191 metros do chão e eu senti-me num enorme precipício artificial. É uma piscina tão ousada que impressiona até os mais descrentes.

Passei o final do dia no skypark, apreciei os jardins e ainda usufruí de um cocktail de morango. Tudo cortesia do Marina Bay.

Foi uma tarde de sábado diferente onde desfrutei de Singapura, em alta definição. Mais um desafio ultrapassado, mais uma história para contar...

Um pedaço de fé em Little Índia



Sendo o continente asiático o berço das religiões do mundo, gostava de partilhar convosco alguns momentos que me marcaram. Será o Natal a estimular este desejo?

A verdade é que é imperdoável desdobrar a Ásia há mais de um mês e ainda não o ter feito, já que em cada instante há uma nova história que me encontra: um templo hindu; uma conversa com uma muçulmana simpática; uma escola budista com as portas abertas; uma menina indiana a receber uma pintura na mão enquanto canta; uma mesquita islâmica que desaprova os meus ombros descobertos.

No entanto, acredito que a fé é um tema muito delicado e merece tempo e dedicação.

Penso que foi no norte de Singapura, em Little Índia, que me despertou a vontade de escrever sobre as crenças espirituais das pessoas.

Entrei no Sri Veeramakaliamman Temple (dedicado à deusa hindu Kali) e assisti à mais intensa manifestação de fé que alguma vez pude imaginar.

Como em todos os templos, descalcei-me e juntei os meus às centenas de sapatos que se encontravam nas escadarias. Fechei os olhos para tentar andar, vagarosamente, por entre o incenso que queimava o oxigénio. E comecei a ver as pessoas a beijar o chão e a ajoelhar-se perante os deuses enfeitados com flores. Senti-me impressionada ao sentir a devoção com que recebiam a bênção do sacerdote que lhes pintava a testa com uma tinta branca (bindi). As pessoas esboçavam gestos, pronunciavam sons e comiam. Sim, havia lá comida para quem se quisesse sentar no chão a devorar o arroz abençoado. No final, deixavam o seu donativo, calçavam-se e iam para casa com a alma mais pura.

Vi famílias completas a ultimar o seu ato de fé. Qualquer pessoa é bem-vinda e ninguém pareceu se incomodar com a minha presença. Fui convidada a dar o meu donativo e prestar um contributo para preservar o templo.

Este momento acabou por se sobressair na passagem por Little Índia, um pequeno pedaço de terra onde se respira a cultura indiana.

Apimentei o meu paladar com o famoso garlic naan indiano (uma espécie de pão com queijo e especiarias) e encantei-me com as mulheres enroladas em seus saris e os turbantes vistosos dos homens mais tradicionais.

Caminhei por entre casinhas coloridas em estilo colonial, com calçadas estreitas e protegidas do sol por barraquinhas repletas de tecidos, ouro, especiarias, guirlandas de jasmim e incenso. Os vendedores entusiastas mostravam artefatos artesanais e mercadorias atraentes que ressaltavam fragrâncias tão fortes e cores tão vivas como a fé dos indianos.

Singapura, a cidade das multas

As sapatilhas já não pisam uma calçada gasta e os olhos já não encontram barraquinhas a perfumar as ruas com os cheiros a picante.

Chegamos a Singapura e aqui tudo é mais limpo, calmo e organizado.

Fascino-me com os arranha-céus que cobrem a cidade.
Espanto-me com as pessoas extremamente cívicas. Nos passeios andam, quase em fila, pela esquerda. Até no metro, que nos leva a qualquer parte da cidade, sinto os meus pés a ultrapassar linhas que limitam por onde andar e onde esperar.

Passeio pela rua completamente despercebida. Aqui vemos imensos estrangeiros, não só turistas. Muitas pessoas optam por Singapura para viver, para trabalhar, para estabelecer os seus negócios.

Reparo que as pessoas são preocupadas com a sua imagem. Apesar do calor continuar a embrenhar-se no corpo, os calções são substituídos por calças vincadas e os chinelos a arrastar pela rua dão lugar a saltos altos e malas que, pela forma que são abraçadas, devem transportar valores inigualáveis.

Conhecido como o país que tem mais ricos do mundo, Singapura precisa satisfazer os requisitos dessas pessoas. E está preparada para isso, para receber muito dinheiro em hotéis, restaurantes, clubs.

Pode já não ser possível usufruir de uma relaxante massagem na rua, mas Singapura faz questão de elevar um spa para satisfazer os seus visitantes. Tudo para deliciar os gostos mais requintados.

Tendo a Ásia moedas tão diferentes de país para país, aqui optaram, obviamente, pelo Dólar de Singapura. A inflação sobe mais do dobro em relação a outros locais do continente asiático, como na Malásia. Em contrapartida, assemelha-se a Portugal.

A diversidade cultural de Singapura é refletida na gastronomia. Delicio-me com alguns pratos chineses, indianos e coreanos. No entanto, em vários locais é proibida a venda de fruta na rua por expulsar cheiros intensos. Para os mais esquecidos, há cartazes a alertar a multa.

Sim, este é o país das multas. Multa se fumar em certas estradas, se não descarregar a água na sanita, se gritar num jogo de futebol, se comer e beber dentro de transpores públicos ou mesmo se abraçar sem permissão. Esta foi a que mais me impressionou. Nem parece verdade, mas aqui a lei é muito peculiar e tem de ser respeitada porque as multas chegam a ultrapassar os 1000 dólares (quase 600 euros).

É uma cidade muito desenvolvida. Arriscar-me-ia a equipará-la com grandes capitais europeias ou mesmo com Nova Iorque. Mas receio que o misticismo da Ásia se tenha perdido em tanta preocupação com a segurança e a organização.


Chinatown, a loucura das imitações

Profundamente imersa na cultura oriental, Chinatown é, sem dúvida, uma das surpresas mais marcantes na Malásia. Adoro passear nestas artérias que se transformam em pleno mercado do comércio.

Aqui, na Jalan Petaling, no coração de Kuala Lumpur, descubro este mágico local para as compras. É difícil entrar na Chinatown sem um negócio debaixo do olho e é fácil sair com uma nova aquisição debaixo do braço.

Todos os dias, no final da manhã, os comerciantes arrastam as suas as compactas barraquinhas por estas ruas estreitas. E começa o encantamento: as cores das camisolas que se misturam com os cheiros dos perfumes e os padrões das malas que se confundem com os brinquedos expostos.

É um nova atmosfera que se respira, repleta de pessoas que anseiam por novas compras e por vendedores que as sufocam com novas pechinchas. Tudo está à venda e tudo é negociável.

Os produtos não variam muito de banca para banca. Mas em todas há um facto em comum: não há preço exposto. O que obrigada à tão aguardada negociação entre mercadores e clientes. Várias quantias são lançadas, uns olhares sérios são trocados e acaba-se sempre com menos de metade do valor inicial.

Na minha cabeça a dúvida mantêm-se. Será que estes relógios são imitação?
Uns metros à frente não houve essa preocupação do negociante em apontar para a mochila "vois", com um orgulhoso sorriso. Isto é qualidade, acrescentou. 

Há também as lojas que combatem o calor com o tão aclamado ar condicionado, convidando as pessoas a descansar da pressão do mercado de rua.

No final da noite os preços diminuem e os vendedores mais apressados começam a colocar os seus produtos em velhas caixas de papelão enroladas em fita-cola.

E é neste paraíso para caçadores de negócio que termino o dia. Uns presentes comprados e o coração cheio de histórias para contar.