Encosta o capacete, está muito calor!


Sinto o pescoço a dobrar na tentativa de olhar para todos os arranha-céus que quase tocam nas nuvens. Kuala Lumpur está a crescer a uma velocidade alucinante.

O céu enche-se de gruas que se esforçam em rodar e rodar, tentando acompanhar o crescimento dos prédios. Os trabalhadores combatem os 26 graus com alguma água e muitas paragens. Encostam os capacetes azuis por uns momentos e sentam-se à sombra. Não conseguem muito mais, está calor.

Ando mais um pouco e encontro um trabalhador com capacete branco. É o que tenta motivar os restantes. Não está fácil e o próprio acaba por se sentar também, está mesmo muito calor.

As máquinas não descansam à  noite. Os trabalhadores também não. Pelo menos é mais fresco, ouço o comentário de um turista inglês que percebe de obras.

Todos os dias vemos um edifício que cresce mais um andar e com ele a alegria das pessoas que vivem aqui, que vêm o turismo e a economia aumentar.

Com o apoio do governo, a Malásia é um dos países que mais cresce no mundo. Acredito que é um crescimento positivo e que Kuala Lumpur está a evoluir. Uma grande cidade. Só espero que não perca esta magia que tanto a distingue.

Ora toma lá um beijinho

De todas as chamadas que fiz para escolas e de todas as associações que visitei resultaram imensas experiências. Uma delas foi a minha passagem pela Escola Internacional Joykids.

Tudo começou com uma conversa virtual com a Diretora. Escrevi-lhe sobre a minha vontade em conhecer a escola, prestar alguma colaboração ou mesmo criar um projeto. No dia seguinte estava a alongar esta conversa presencialmente. E dois dias depois já estava a trabalhar na escola.

Há uma enorme falta de professores e educadores. São eles que escolhem as escolas mais perto de casa, as que proporcionam um melhor rendimento ou então as mais conceituadas.

Aqui na Malásia há três tipos de escolas: do governo, privadas e internacionais.
Nas primeiras as crianças não pagam a escola, mas o estado apenas permite a entrada de professores locais oferecendo-lhes um salário reduzido.
As escolas privadas já abrem as portas a outros professores e cobram um valor para os alunos aprenderem.
Mas a cada esquina encontramos escolas internacionais que oferecem espaços e materiais prestigiados, inúmeras atividades desportivas como golf e squash e ainda um currículo internacional, em troca de valores anuais elevadíssimos. Falam-se várias línguas havendo sempre uma preferência pelo inglês e o mandarim.  

Durante as três semanas que trabalhei na escola apercebi-me que as pessoas trabalham de uma forma bastante calma sob as igualmente serenas orientações da Principal, a responsável pela formação dos profissionais da escola. Todos os dias me perguntava se tinha colegas  portuguesas para

Preparamos para o Open House, a abertura oficial da escola. Os pais retiram os sapatos e entram com os olhos bem abertos reparando em cada pormenor das salas e questionando cada frase pronunciada. Ora sobre os materiais Montessori, ora sobre o uniforme, ora sobre os chefs que confeccionavam a comida asiática, ocidental e vegetariana.

Mas o que mais me encheu o coração foi contactar com pessoas de todos os cantos do mundo. Os nossos almoços eram sempre acompanhados com costumes, palavras novas e gargalhadas à mistura.

A primeira vez que me apresentaram uma nova colega, eu inclinei a cabeça para lhe dar um beijo no rosto e todos estagnaram a olhar para mim, como se eu estivesse a cometer o maior pecado do mundo. Apesar de eu ter percebido que o aperto de mão conduzido com um olá seria o suficiente, a minha cabeça não obedecia e, quase todos os dias, lá procurava um rosto que se encostasse ao meu.

Semanas depois já todos riam imenso sobre esta minha faceta beijoqueira.

Até que, no último dia, estávamos todos eternizar aqueles momentos quando a minha colega Ruby me surpreendeu: Ora toma lá um beijinho!




Cuidado! Vêm aí uma mota.

Estou muito contente a andar pelo passeio quando me apercebo de uma mota a desviar-se por entre as pessoas, uns obstáculos que teimam em circular por ali. É verdade, em Kuala Lumpur as motas não param. A circulação é caótica, está muito calor e não há tempo a perder.

Estas listas amarelas no chão parecem uma passadeira para peões? 
Não, para os motoristas que dirigem estas energéticas motas, é apenas uma forma de ver quem se aproxima no cruzamento. 
Para compensar, as pessoas ignoram os sinais pedestres, que apenas persistem uns segundos, e atravessam por entre os veículos, de uma forma completamente descontraída.

Quando me chego perto identifico uma condução pela esquerda que, tal como a cidade em si, prime por uma desorganização assumida e uma lentidão generalizada. Mas não há nervosismos, já ninguém liga ao trânsito.  

Num Proton que já viu melhores dias admirei uma senhora a alisar os cabelos com um pente prateado. Do outro lado, num Honda que jamais passaria numa inspeção, um cavalheiro aparava os poucos pelos que teimavam em crescer no queixo.

Apetece escolher os transportes públicos e a rede aqui até é interessante. Temos o Mono Real que voa pela cidade, o comboio que circula pela periferia e ainda autocarros nas principais estações, que nos levam a áreas que não chegam os restantes transportes.

Mas a verdade é que é tão barato andar de táxi, que esta se torna numa opção a pensar. Dispensamos RM10, um pouco mais de 2 euros, para uma jornada de vinte minutos.

Devido às histórias que ouvimos sobre taxistas usamos a plataforma MyTeksi para encontrar um veículo disponível de uma pessoa que, pelo menos, sabemos o nome. Mas a demora convida-nos a levantar o braço e aí começa a aventura.

Nesta terra são os taxistas que escolhem os seus clientes e esforçam-se em orçamentar uma viagem. Entra-se no táxi e sente-se o ar condicionado a entrar em todos os poros do corpo deixando a pele arrepiar-se de tanto frio. Como em todos os países tropicais há uma obsessão pelo ar condicionado. Mas rapidamente me esqueço quando ouço os alto-falantes despejar melodias aceleradas para contrapor o tráfego.


O obrigada acompanhado de "não tenho troco" é a despedida destas viagens alucinantes. 


Tiras uma fotografia comigo?

Sabem aquela sensação de estarem a ser observados? Esqueçam a sensação. Aqui estamos mesmo a ser observados e bem observados, a toda a hora.

Enquanto caminho na rua, percorro os transportes ou exploro as lojas, as pessoas malaias seguem-me com o olhar, de uma forma estranhamente descarada. No inicio ficava sem saber o que fazer, agora já me habituei. Eles não têm qualquer pudor em fazê-lo até porque aqui os europeus é que são diferentes.

Uns fazem-no com uma conotação alienígena. Outros como se fossemos um ícone.
Uns desaprovam o meu cabelo descoberto ou os meus braços totalmente destapados. Outros acompanham a mira com um sorriso, como se estimassem a minha presença.

Numa tarde, estava a tentar perceber o tamanho das petronas quando reparei num grupo de mulheres que me olhavam, sorriam e sussurravam. Foram precisos alguns momentos de estimulo até que a mais corajosa das quatro veio ter comigo e, de um jeito muito acanhado, pediu para tirar uma fotografia. Acenei imediatamente com a cabeça, preparei as mãos para segurar na câmara e ela hesitou. Por momentos não percebi. Mas ela esgotou todas as palavras em inglês que conhecia para me explicar que queriam tirar uma fotografia comigo.

Acredito que isto aconteça por vários motivos, porque os manequins expostos nas prestigiadas lojas de moda são loiros, na publicidade dos telões vemos americanos e os atores que protagonizam as telenovelas são latinos.

Mas não se deixem enganar. Vejo aqui pessoas muito bonitas. Têm outras roupas, outros adereços, mas a beleza é um sinal bem presente que acompanha as pessoas na Malásia, de uma forma única e especial. Mas isto já é assunto para outra partilha...




No spice!

Vou a andar pela rua e repentinamente o meu olhar é atraído pelas cores das comidas que ressaltam cheiros tão intensos, que me fazem querer experimentar tudo. Por vezes corre bem, outras não.

Até ao momento o que mais gostei foi lamb (borrego) e o tão aclamado arroz, aquilo que mais se encontra aqui na Malásia. Ora servido dentro de um ananás, ora numa folha de banana leaf 1. Umas vezes comendo com pausinhos, outras com as mãos, como manda a tradição. Mas sempre acompanhando com o famoso Ice Lemon Tea. Um chã quente de limão bem docinho e com gelo na superfície. Refresca o corpo nestes dias quentes e adoça a alma de tanto picante.

Sim, aqui a especialidade é definitivamente o picante! Tudo tem picante, desde os legumes, ao chã e até o chocolate. Acho que a frase que mais tenho dito é "no spice" (sem picante). Talvez não seja suficientemente convicta ao dizê-lo. A verdade é que os comerciantes, por entre o suor que escorre pela sua face, disfarçam um sorriso e franzem a testa como se não compreendessem o motivo de eu não querer picante. Mais e mais uma vez, usam e abusam daquelas bolinhas vermelhas que se desfazem no céu da boca e transformam a língua numa bola de fogo.

Outras vezes delicio-me com estas espetadinhas que são mergulhadas num pote onde os alimentos são fervidos, espalhando os fumos quentes por entre as barraquinhas da rua Jalan Alor. Nestas lojas improvisadas também me mimo a provar todas as frutas exóticas que vou encontrando: umas roxas com pintas pretas; outras vermelhas com picos e até amarelas em forma oval e com sabor a goma. Também há melão com sabor a melão. Mas com picos e um ligeiro sabor a picante, claro.




1 Banana Leaf são folhas da bananeira usadas para decorar, embrulhar, cozinhar e servir a comida. São geralmente grandes, flexíveis e à prova de água. Estas folhas podem conferir um aroma especial à comida e conserva os alimentos.

És tão bonita, não precisas de usar maquilhagem

Asian Kid

Tudo é novo aqui: as pessoas, os cheiros, a temperatura, as ruas.

Mas aquilo que mais me impressionou foram, sem dúvida, as crianças estarem constantemente a perguntar se queríamos uma massagem nos pés, uns relógios "quase originais", umas flores plastificadas ou mesmo uma espetada de rã.

É muito chocante, em menos de 24 horas, ver estes extremos.
Crianças no avião envolvidas em mantas fofas e a jogar num aparelho quase tão fino como uma folha de papel.
Crianças na rua envolvidas em hijab1 a tentar impressionar turistas com os olhos quase tão cansados como a calçada de Lisboa.

Ambas enfrentam as adversidades ou os prazeres de um presente que lhes foi dado, sem hipótese de escolha. 

Porque é que estas crianças estão aqui a esta hora da noite? Não têm de acordar cedo amanhã?
Não é justo que não tenham os mesmos direitos básicos de qualquer criança.
Não é justo que não tenham tempo para brincar.

Tentei preparar-me para isto o máximo que consegui: li acerca das diferenças culturais, assisti a filmes, vi vídeos e reportagens sobre crianças asiáticas. Mas, pelos vistos, foi em vão.

Apetece fazer alguma coisa já e a minha primeira reação foi falar com uma menina que só me dizia "please, please, please". O que saiu foi "és tão bonita, não precisas de usar maquilhagem". Perante o seu sorriso rasgado perguntei se ela ia à escola amanhã e ela fugiu.

Senti-me tão impotente. Cheguei a casa e enviei dezenas de e-mails, apontei números de telefone e registei moradas. Vamos lá!



1  Véu que cobre os cabelos das mulheres e crianças muçulmanas

Meio dia depois chegamos à Ásia!


Já com as malas atoladas da mais difícil seleção de roupa da minha vida, lá entramos no comboio e depois no metro em direção ao avião.

No aeroporto pasmei-me com os estratagemas que as pessoas fazem para entrar com mil e uma malas. São mais de cinquenta quilos aqui, uma mala escondida ali e lá se vai fazendo negócios em Luanda! "Eles não me tramam, se pagasse a multa não me compensava"

Munida de muito sono lá entrei no avião. A ideia era embalar durante o voo. Mas a verdade é que vi dois filmes com legendas em Koreano, li quase três capítulos do meu novo livro de bolso e ainda deu tempo para jogar tetris.
Entrei no Sudoeste Asiático já com uma dose gigante de dor de barriga por comer feijão verde ao pequeno almoço. Não devia ter comido, foi a frase que o meu estômago repetiu ao longo da manhã.
Um comboio rápido guiou-nos por entre as paisagens verdes com cor fresca até Kuala Lumpur. Conforme nos aproximávamos do centro da cidade, também os edifícios cresciam de uma forma estonteante, por entre o sol que se esforçava em aparecer.

Saí de Portugal às 15horas e meio dia depois: estamos na Malásia, são 13 horas e não consigo respirar!