Mergulhar na melhor vista de Singapura



Em Singapura respira-se segurança e tudo está devidamente organizado.

Por esse motivo, era impossível entrar de penetra naquele hotel gigante que fica na mira de qualquer ponto da cidade. Estou a falar-vos do Marina Bay Sands

Tudo ali é superlativo. São três torres conectadas no cimo por um pátio, em forma de barco, cujo comprimento é superior ao tamanho da Torre Eiffel deitada. Este hotel associa-se a números extraordinários, desde o valor da construção (R$12 bilhões) até ao tamanho da piscina (150 metros).

O desafio que me propuseram foi conseguir infiltrar-me neste grandioso empreendimento para podermos mergulhar na melhor vista da cidade. 

Sabia que não era fácil por isso pensei num plano. Fui equipada para o ginásio e entrei no hotel mais caro do mundo com a maior confiança do mundo. 

Consegui disfarçar a entrada num elevador da 2ª torre incluindo-me num grupo de amigas divertidas com telemóveis nas mãos. Como não tinha o cartão necessário para escolher um andar, saí do elevador com um agradável casal holandês que usufruíam de duas semanas de férias no hotel.  Estávamos no 15º andar. 

Enquanto caminhava por entre o corredor que conduzia aos quartos, vi uma porta aberta. Abrandei e um funcionário do hotel, que procedia à limpeza, imediatamente veio ter comigo. Expliquei-lhe que pretendia ir ao ginásio mas esqueci-me do cartão dentro do meu quarto. O Mr. Wang não sabia falar inglês. Tentei uns movimentos universais de exercício físico e ele esboçou uma enorme gargalhada. Acho que o meu esforço o convenceu e deu-me o seu cartão. Por momentos pensei que o simpático senhor me tinha emprestado o dito bilhete-de-visita mas fez questão de dizer, por entre gestos, que ficava para mim. Poderia me esquecer novamente e assim ficava com dois, elucidou-me. 

Entrei no elevador, introduzi o cartão dourado na ranhura e senti o meu dedo encontrar-se com o número 57, o andar superior. A porta abriu-se para uma verdadeira pintura a óleo da cidade de Singapura. Foi então que percebi o motivo deste hotel ser considerado uma das obras mais vertiginosas de sempre

Comecei a nadar em direcção ao infinito e quando a plataforma de mármore me parou, os meus olhos rodaram em todos sentidos. Vi os arranha-céus a tocarem as nuvens, as copas das árvores a embelezar o cenário e os carros que se assemelhavam a minúsculas formigas trabalhadoras. 

A piscina tem uma distância de 191 metros do chão e eu senti-me num enorme precipício artificial. É uma piscina tão ousada que impressiona até os mais descrentes.

Passei o final do dia no skypark, apreciei os jardins e ainda usufruí de um cocktail de morango. Tudo cortesia do Marina Bay.

Foi uma tarde de sábado diferente onde desfrutei de Singapura, em alta definição. Mais um desafio ultrapassado, mais uma história para contar...

Um pedaço de fé em Little Índia



Sendo o continente asiático o berço das religiões do mundo, gostava de partilhar convosco alguns momentos que me marcaram. Será o Natal a estimular este desejo?

A verdade é que é imperdoável desdobrar a Ásia há mais de um mês e ainda não o ter feito, já que em cada instante há uma nova história que me encontra: um templo hindu; uma conversa com uma muçulmana simpática; uma escola budista com as portas abertas; uma menina indiana a receber uma pintura na mão enquanto canta; uma mesquita islâmica que desaprova os meus ombros descobertos.

No entanto, acredito que a fé é um tema muito delicado e merece tempo e dedicação.

Penso que foi no norte de Singapura, em Little Índia, que me despertou a vontade de escrever sobre as crenças espirituais das pessoas.

Entrei no Sri Veeramakaliamman Temple (dedicado à deusa hindu Kali) e assisti à mais intensa manifestação de fé que alguma vez pude imaginar.

Como em todos os templos, descalcei-me e juntei os meus às centenas de sapatos que se encontravam nas escadarias. Fechei os olhos para tentar andar, vagarosamente, por entre o incenso que queimava o oxigénio. E comecei a ver as pessoas a beijar o chão e a ajoelhar-se perante os deuses enfeitados com flores. Senti-me impressionada ao sentir a devoção com que recebiam a bênção do sacerdote que lhes pintava a testa com uma tinta branca (bindi). As pessoas esboçavam gestos, pronunciavam sons e comiam. Sim, havia lá comida para quem se quisesse sentar no chão a devorar o arroz abençoado. No final, deixavam o seu donativo, calçavam-se e iam para casa com a alma mais pura.

Vi famílias completas a ultimar o seu ato de fé. Qualquer pessoa é bem-vinda e ninguém pareceu se incomodar com a minha presença. Fui convidada a dar o meu donativo e prestar um contributo para preservar o templo.

Este momento acabou por se sobressair na passagem por Little Índia, um pequeno pedaço de terra onde se respira a cultura indiana.

Apimentei o meu paladar com o famoso garlic naan indiano (uma espécie de pão com queijo e especiarias) e encantei-me com as mulheres enroladas em seus saris e os turbantes vistosos dos homens mais tradicionais.

Caminhei por entre casinhas coloridas em estilo colonial, com calçadas estreitas e protegidas do sol por barraquinhas repletas de tecidos, ouro, especiarias, guirlandas de jasmim e incenso. Os vendedores entusiastas mostravam artefatos artesanais e mercadorias atraentes que ressaltavam fragrâncias tão fortes e cores tão vivas como a fé dos indianos.

Singapura, a cidade das multas

As sapatilhas já não pisam uma calçada gasta e os olhos já não encontram barraquinhas a perfumar as ruas com os cheiros a picante.

Chegamos a Singapura e aqui tudo é mais limpo, calmo e organizado.

Fascino-me com os arranha-céus que cobrem a cidade.
Espanto-me com as pessoas extremamente cívicas. Nos passeios andam, quase em fila, pela esquerda. Até no metro, que nos leva a qualquer parte da cidade, sinto os meus pés a ultrapassar linhas que limitam por onde andar e onde esperar.

Passeio pela rua completamente despercebida. Aqui vemos imensos estrangeiros, não só turistas. Muitas pessoas optam por Singapura para viver, para trabalhar, para estabelecer os seus negócios.

Reparo que as pessoas são preocupadas com a sua imagem. Apesar do calor continuar a embrenhar-se no corpo, os calções são substituídos por calças vincadas e os chinelos a arrastar pela rua dão lugar a saltos altos e malas que, pela forma que são abraçadas, devem transportar valores inigualáveis.

Conhecido como o país que tem mais ricos do mundo, Singapura precisa satisfazer os requisitos dessas pessoas. E está preparada para isso, para receber muito dinheiro em hotéis, restaurantes, clubs.

Pode já não ser possível usufruir de uma relaxante massagem na rua, mas Singapura faz questão de elevar um spa para satisfazer os seus visitantes. Tudo para deliciar os gostos mais requintados.

Tendo a Ásia moedas tão diferentes de país para país, aqui optaram, obviamente, pelo Dólar de Singapura. A inflação sobe mais do dobro em relação a outros locais do continente asiático, como na Malásia. Em contrapartida, assemelha-se a Portugal.

A diversidade cultural de Singapura é refletida na gastronomia. Delicio-me com alguns pratos chineses, indianos e coreanos. No entanto, em vários locais é proibida a venda de fruta na rua por expulsar cheiros intensos. Para os mais esquecidos, há cartazes a alertar a multa.

Sim, este é o país das multas. Multa se fumar em certas estradas, se não descarregar a água na sanita, se gritar num jogo de futebol, se comer e beber dentro de transpores públicos ou mesmo se abraçar sem permissão. Esta foi a que mais me impressionou. Nem parece verdade, mas aqui a lei é muito peculiar e tem de ser respeitada porque as multas chegam a ultrapassar os 1000 dólares (quase 600 euros).

É uma cidade muito desenvolvida. Arriscar-me-ia a equipará-la com grandes capitais europeias ou mesmo com Nova Iorque. Mas receio que o misticismo da Ásia se tenha perdido em tanta preocupação com a segurança e a organização.


Chinatown, a loucura das imitações

Profundamente imersa na cultura oriental, Chinatown é, sem dúvida, uma das surpresas mais marcantes na Malásia. Adoro passear nestas artérias que se transformam em pleno mercado do comércio.

Aqui, na Jalan Petaling, no coração de Kuala Lumpur, descubro este mágico local para as compras. É difícil entrar na Chinatown sem um negócio debaixo do olho e é fácil sair com uma nova aquisição debaixo do braço.

Todos os dias, no final da manhã, os comerciantes arrastam as suas as compactas barraquinhas por estas ruas estreitas. E começa o encantamento: as cores das camisolas que se misturam com os cheiros dos perfumes e os padrões das malas que se confundem com os brinquedos expostos.

É um nova atmosfera que se respira, repleta de pessoas que anseiam por novas compras e por vendedores que as sufocam com novas pechinchas. Tudo está à venda e tudo é negociável.

Os produtos não variam muito de banca para banca. Mas em todas há um facto em comum: não há preço exposto. O que obrigada à tão aguardada negociação entre mercadores e clientes. Várias quantias são lançadas, uns olhares sérios são trocados e acaba-se sempre com menos de metade do valor inicial.

Na minha cabeça a dúvida mantêm-se. Será que estes relógios são imitação?
Uns metros à frente não houve essa preocupação do negociante em apontar para a mochila "vois", com um orgulhoso sorriso. Isto é qualidade, acrescentou. 

Há também as lojas que combatem o calor com o tão aclamado ar condicionado, convidando as pessoas a descansar da pressão do mercado de rua.

No final da noite os preços diminuem e os vendedores mais apressados começam a colocar os seus produtos em velhas caixas de papelão enroladas em fita-cola.

E é neste paraíso para caçadores de negócio que termino o dia. Uns presentes comprados e o coração cheio de histórias para contar.


Encosta o capacete, está muito calor!


Sinto o pescoço a dobrar na tentativa de olhar para todos os arranha-céus que quase tocam nas nuvens. Kuala Lumpur está a crescer a uma velocidade alucinante.

O céu enche-se de gruas que se esforçam em rodar e rodar, tentando acompanhar o crescimento dos prédios. Os trabalhadores combatem os 26 graus com alguma água e muitas paragens. Encostam os capacetes azuis por uns momentos e sentam-se à sombra. Não conseguem muito mais, está calor.

Ando mais um pouco e encontro um trabalhador com capacete branco. É o que tenta motivar os restantes. Não está fácil e o próprio acaba por se sentar também, está mesmo muito calor.

As máquinas não descansam à  noite. Os trabalhadores também não. Pelo menos é mais fresco, ouço o comentário de um turista inglês que percebe de obras.

Todos os dias vemos um edifício que cresce mais um andar e com ele a alegria das pessoas que vivem aqui, que vêm o turismo e a economia aumentar.

Com o apoio do governo, a Malásia é um dos países que mais cresce no mundo. Acredito que é um crescimento positivo e que Kuala Lumpur está a evoluir. Uma grande cidade. Só espero que não perca esta magia que tanto a distingue.

Ora toma lá um beijinho

De todas as chamadas que fiz para escolas e de todas as associações que visitei resultaram imensas experiências. Uma delas foi a minha passagem pela Escola Internacional Joykids.

Tudo começou com uma conversa virtual com a Diretora. Escrevi-lhe sobre a minha vontade em conhecer a escola, prestar alguma colaboração ou mesmo criar um projeto. No dia seguinte estava a alongar esta conversa presencialmente. E dois dias depois já estava a trabalhar na escola.

Há uma enorme falta de professores e educadores. São eles que escolhem as escolas mais perto de casa, as que proporcionam um melhor rendimento ou então as mais conceituadas.

Aqui na Malásia há três tipos de escolas: do governo, privadas e internacionais.
Nas primeiras as crianças não pagam a escola, mas o estado apenas permite a entrada de professores locais oferecendo-lhes um salário reduzido.
As escolas privadas já abrem as portas a outros professores e cobram um valor para os alunos aprenderem.
Mas a cada esquina encontramos escolas internacionais que oferecem espaços e materiais prestigiados, inúmeras atividades desportivas como golf e squash e ainda um currículo internacional, em troca de valores anuais elevadíssimos. Falam-se várias línguas havendo sempre uma preferência pelo inglês e o mandarim.  

Durante as três semanas que trabalhei na escola apercebi-me que as pessoas trabalham de uma forma bastante calma sob as igualmente serenas orientações da Principal, a responsável pela formação dos profissionais da escola. Todos os dias me perguntava se tinha colegas  portuguesas para

Preparamos para o Open House, a abertura oficial da escola. Os pais retiram os sapatos e entram com os olhos bem abertos reparando em cada pormenor das salas e questionando cada frase pronunciada. Ora sobre os materiais Montessori, ora sobre o uniforme, ora sobre os chefs que confeccionavam a comida asiática, ocidental e vegetariana.

Mas o que mais me encheu o coração foi contactar com pessoas de todos os cantos do mundo. Os nossos almoços eram sempre acompanhados com costumes, palavras novas e gargalhadas à mistura.

A primeira vez que me apresentaram uma nova colega, eu inclinei a cabeça para lhe dar um beijo no rosto e todos estagnaram a olhar para mim, como se eu estivesse a cometer o maior pecado do mundo. Apesar de eu ter percebido que o aperto de mão conduzido com um olá seria o suficiente, a minha cabeça não obedecia e, quase todos os dias, lá procurava um rosto que se encostasse ao meu.

Semanas depois já todos riam imenso sobre esta minha faceta beijoqueira.

Até que, no último dia, estávamos todos eternizar aqueles momentos quando a minha colega Ruby me surpreendeu: Ora toma lá um beijinho!




Cuidado! Vêm aí uma mota.

Estou muito contente a andar pelo passeio quando me apercebo de uma mota a desviar-se por entre as pessoas, uns obstáculos que teimam em circular por ali. É verdade, em Kuala Lumpur as motas não param. A circulação é caótica, está muito calor e não há tempo a perder.

Estas listas amarelas no chão parecem uma passadeira para peões? 
Não, para os motoristas que dirigem estas energéticas motas, é apenas uma forma de ver quem se aproxima no cruzamento. 
Para compensar, as pessoas ignoram os sinais pedestres, que apenas persistem uns segundos, e atravessam por entre os veículos, de uma forma completamente descontraída.

Quando me chego perto identifico uma condução pela esquerda que, tal como a cidade em si, prime por uma desorganização assumida e uma lentidão generalizada. Mas não há nervosismos, já ninguém liga ao trânsito.  

Num Proton que já viu melhores dias admirei uma senhora a alisar os cabelos com um pente prateado. Do outro lado, num Honda que jamais passaria numa inspeção, um cavalheiro aparava os poucos pelos que teimavam em crescer no queixo.

Apetece escolher os transportes públicos e a rede aqui até é interessante. Temos o Mono Real que voa pela cidade, o comboio que circula pela periferia e ainda autocarros nas principais estações, que nos levam a áreas que não chegam os restantes transportes.

Mas a verdade é que é tão barato andar de táxi, que esta se torna numa opção a pensar. Dispensamos RM10, um pouco mais de 2 euros, para uma jornada de vinte minutos.

Devido às histórias que ouvimos sobre taxistas usamos a plataforma MyTeksi para encontrar um veículo disponível de uma pessoa que, pelo menos, sabemos o nome. Mas a demora convida-nos a levantar o braço e aí começa a aventura.

Nesta terra são os taxistas que escolhem os seus clientes e esforçam-se em orçamentar uma viagem. Entra-se no táxi e sente-se o ar condicionado a entrar em todos os poros do corpo deixando a pele arrepiar-se de tanto frio. Como em todos os países tropicais há uma obsessão pelo ar condicionado. Mas rapidamente me esqueço quando ouço os alto-falantes despejar melodias aceleradas para contrapor o tráfego.


O obrigada acompanhado de "não tenho troco" é a despedida destas viagens alucinantes.